LIVRO ARPOADOR
Author: Luiza Interlenghi (2011)

Breves encontros acontecem na junção entre duas páginas prestes a serem viradas. Em Arpoador, um só lugar, certas séries fotográficas e estudos – desenhos, escritos, colagens – constituem um espaço afetivo e de experimentação. A praia, frequentada há décadas e, desde 1997, fotografada por Marcos Bonisson, se configura no encadeamento de situações efêmeras. Como aquela em que uma onda se levanta no mar opaco e vence o distante relevo das montanhas. Sua superfície rugosa, que força o limite do enquadramento, se contrapõe à geografia do corpo, no centro da página seguinte, onde a cavidade do ouvido tem a profundidade das cavernas. Bonisson nos convoca a uma interioridade impregnada na paisagem. As nuvens, as pedras, as curvas crespas do oceano, a superfície da areia que respira quando tocada pela maré do Arpoador são como corpos. E mesmo quando difusos, por vezes submersos, os corpos são como as pedras. Os altos e baixos das montanhas, lá onde deveria descansar o horizonte, são como a carne cortando a luminosidade de um dia que, devagar, chega ao fim. Não há limites entre o interior e o exterior.

A própria fotografia assume um caráter exploratório: demarca territórios, assinala fluxos de luz, descreve e analisa objetos, movimentos, atmosferas. A linha tanto estrutura como testa a paisagem. Fragmentos de corda em ziguezague riscam desvios em contraposição ao horizonte que, sabemos, tende a organizar a visão. Embora visível, o horizonte retilíneo é invenção da paisagem. Como o metro flexível de Duchamp, as cordas com que Bonisson desestabiliza a visão medem perímetros efêmeros e contornam poças que, sabemos, vão desaparecer.

Em Arpoador, a presença do fotógrafo – tema central no debate sobre a imagem que o ato fotográfico de Philipe Dubois resgata em Barthes –, é enunciada nas visões ocasionais de um frequentador da praia carioca. O jogo circular entre observador e observado, proximidade e distância, tangencia e se distingue da poética de Alair Gomes. Desenha um espaço auto-referente, topológico, reiterado em situações prosaicas, como o jogo de olhares entre a mulher que observa os que, da pedra, olham à distância o oceano onde ela flutua. Na sequência contínua, montada a partir de imagens de séries como Aquarpex, Balada do Corpo solar e Topológica, assim como nos estudos, Bonisson se aproxima dos cut up de Burroughs, descolando-se do instante decisivo de Bresson. Observa, então, com aguda sensibilidade, sua própria produção fotográfica. Essa investigação sobre a natureza do olhar é indicada por superfícies reflexivas, que marcam discretamente um gesto fotográfico. Ali, na película de bolhas acumuladas na areia e no brilho de esferas metálicas dispostas nas cavidades da rocha, o vulto do fotógrafo é entrevisto.

A cada imagem um outro mar, aquele céu, uma figura no rochedo. A sensualidade plena é explorada com a densidade da pintura. A força simbólica de situações efêmeras fixadas na imagem é cortada com precisão gráfica e, mesmo, certo humor. A paginação sem margem põe a fotografia em vivo contato com seu entorno, provocando contaminações, deslocamentos, repetições e continuidades entre imagens. Ritmos criados no encontro com a paisagem: imersão, proximidade, distanciamento, intervenção e desejo. Descolando-se do instante decisivo, na sequência contínua, montada a partir de imagens de séries como Aquarpex, Balada do Corpo solar e Topológica, assim como nos estudos, Bonisson se aproxima dos cut up de Burroughs.

©2020 Marcos Bonisson