KINOLOOKS
Author: Yan Braz (2017)

Usar a palavra, ainda que de forma aleatória, pressupõe uma escolha. William Burroughs com seus cutups pretendia desmascarar a estrutura de poder que a linguagem encerra ao condicionar as interações cotidianas à seu uso. Ao misturar textos de outros autores com os seus, o resultado que buscava, para além de tocar a noção de autoria, era escancarar o procedimento de dominação e libertar o indivíduo das amarras da palavra, seus padrões convencionados de percepção, pensamento e fala. A impessoalidade do método de Burroughs aponta para o aspecto processual do fazer artístico, onde a estrutura de pensamento deve prevalecer sobre o resultado (objeto/obra) produzido. No lugar de uma tesoura para cortar e combinar páginas diferentes, MB usa uma câmera apontada para uma tela de cinema com um filme aleatório sendo projetado e, num clique fortuito, aplica o corte. O rolo de filme é revelado em seguida como uma sequência insuspeita de registros de frações de luz captadas nos cinemas mais diversos da ilha de Manhattan dos anos 1980, uma galáxia brilhante de gabarito alto. Conforme as escalas do trabalho se alternam, a princípio como luz e depois como imagens, o discurso ganha contornos mais visíveis na regularidade da ação. A prática leva à adição. Montado na bicicleta, ou a pé, o desconhecido trazido no deslocamento, nos momentos sucessivos que o levam até as salas de projeção, é cinemático. O artista produz energia. Move a roda que gira sobre a poltrona inerte da sala de cinema. Déjà vu. O resultado, portanto, não se trata de um filme pronto, ofertado, mas de filmes possíveis, novos a cada dia e inconclusos por vocação.